revista Controvérsia

Espaço aberto para a produção intelectual inscrito no campo da filosofia ligado à pesquisa científica em que se tratará de problemas vinculados de alguma maneira à área de concen-tração do PPG Filosofia qual seja Ética e Filosofia Social, e as suas linhas de pesquisa: 1 - Sistemas Éticos, 2 - Linguagem, racionalidade e o discurso da ciência e 3 - Filosofia Social e Política.


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autores desta edição

Artigo
Natureza e natureza: dois conceitos complementares em Rousseau

Introdução

O trabalho tem como objetivo discutir uma singularidade no pensamento de Rousseau que dificilmente pode ser encontrada em outro filósofo. Em algumas passagens de suas obras, Rousseau dá à palavra natureza um sentido quase divino e nela encerra uma espécie de absoluto a ser buscado e seguido. Tal sentido deixa transparecer que há uma natureza da natureza, a qual até poderia ser grafada Natureza, com letra maiúscula, por coincidir com o princípio divino. Nesse sentido, haveria uma natureza absoluta (N) que gera a natureza (n) e o estado de natureza. Como força ativa que estabelece e conserva a ordem de tudo quanto existe (seja num sentido metafísico ou no sentido puramente científico atual), seu sentido é substantivo e não meramente qualificativo, que pode ser expresso na locução adjetiva de nature. É a força de onde emana o próprio estado original e visível da ordem existente, o qual chamamos de estado natural. Presente em diversas partes do Emílio, sobretudo nas palavras do vigário saboiano, essa metafísica é expressa de maneira a propiciar uma leitura de que Natureza (N) e natureza (n) são forças criadoras que se complementam e traduzem a manifestação benfazeja de Deus na vida dos homens.

Da teogonia à teodicéia

Procurando rebater os iluministas ateus, Rousseau comenta que “o que há de mais injurioso para a Divindade não é pensar nela e sim pensar errado a seu respeito” (Rousseau,1973, p. 314). Como pensador cristão, redige seu famoso discurso Profissão de fé do vigário Saboiano no qual expressa suas concepções religiosas. Seu primeiro artigo se resume no seguinte dogma: “uma vontade move o universo e anima a natureza” (Rousseau,1973, p. 309). Essa substância imaterial e eterna possui uma inteligência (segundo artigo), anima as ações livres dos homens (terceiro artigo) e os guia através da consciência.

Tendo aceito a existência de Deus, Rousseau passa a enfrentar o velho problema da teodicéia: quem é o autor do mal? Rousseau resolve o problema de forma sui generis: segundo Cassirrer (in Starobinski, 1991, p. 31) ele não imputa a origem do mal ao homem e tampouco a Deus, mas à sociedade. O problema da teodicéia resolvido por Rousseau possui influência platônica. Platão relata n’A República os argumentos que Sócrates utiliza na busca da justiça e injustiça dizendo:

Então, o bem não é causa de todas as coisas; é a causa do que é bom e não do que é mau. Assim, Deus, dado que é bom, não é a causa de tudo, como se pretende vulgarmente; é causa apenas de uma pequena parte do que acontece aos homens, e não o é da maior, já que os nossos bens são muito menos numerosos que os nossos males e só devem ser atribuídos a Ele, enquanto para os nossos males devemos procurar outra causa, mas não Deus” (2004, p. 67-68).

Quando Rousseau afirma de forma exaltada: “Homem, não procures mais o autor do mal; és tu mesmo esse autor” (Rousseau,1973, p. 320), não está se referindo ao homem essencial, o qual continua bom por natureza, mas, como bem salienta Starobinski (1991, p. 31), ao “homem em relação”, ou seja, ao homem social.

Essa é uma fórmula genial de resolução do problema porque se o mal fosse creditado à Divindade, caberia a ela sua reparação e ao homem tão-somente a fatalidade da aceitação. Pelo contrário, “se o homem é ativo e livre, ele age por si mesmo; tudo o que faz livremente não entra no sistema ordenado da Providência e a essa não pode ser imputado” (Rousseau,1973, p. 318). Politicamente falando, isso significa que a ação político-pedagógica do conserto não deve estar nas mãos da Igreja, e tampouco no plano metafísico, mas significa práxis política e realização humana. Para tanto, muitas são as ações reparadoras, e vale dizer que, dentre elas, as mais importantes são a reestruturação social por meio de um novo e legítimo Contrato Social e o estabelecimento de uma nova forma de educação cujo empreendimento vise à formação do homem total (Paiva, 2005), isto é, a que engloba as duas dimensões: natural e civil.

Em todos os casos, o ponto de partida de Rousseau é a natureza. É ela a dimensão tangível, sensitiva e visível da criação. Não há modelo prototípico mais anterior que o estado de natureza, e, no conjunto de sua obra, o referencial máximo é a natureza humana. Trata-se de três categorias distintas que se tornam mais complexas ainda em seu desdobramentos. No entanto quero ater-me, nesta comunicação, somente a um desdobramento peculiar que pode existir no termo natureza.

Natureza e natureza

Termo-chave da filosofia e categoria de análise ao longo da história do conhecimento, o termo natureza remonta às sociedades arcaicas cujos mitos procuravam dar sentido à vida e explicar suas origens. São os chamados mitos cosmogônicos que estão presentes em praticamente todos os povos, desde a Babilônia antiga aos povos Carajás da Ilha do Bananal. Neles, é o sagrado que assume a condição preeminente de realidade. O mito de Marduc e Tiamat da Babilônia, 2 por exemplo, procurava explicar o surgimento dos céus e da terra por meio da luta entre duas divindades. A nação Carajá, segundo seu mito, nasceu da curiosidade pela exuberância da natureza. 3 A temática explorada pela inventividade dos povos primitivos influenciou substancialmente os primeiros pensadores. A metafísica naturalista dos pré-socráticos tinha como tema central de seus estudos o problema da origem, da evolução e da estrutura do universo. Estudavam, portanto, a physis, ou seja, o elemento constitutivo do mundo natural, podendo ser a água, o fogo ou algum outro, como origem e substrato de todas as coisas.

Em Rousseau, a physis está englobada no termo nature, o qual possui um triplo sentido: o primeiro e mais simples traduz a realidade biofísica do cosmo, com seu conjunto de astros, partículas, moléculas, plantas e animais, emanada do Criador. O segundo tem mais a ver com as inquietações dos pré-socráticos quanto às origens e aos elementos originários da existência, bem como forte relação com o animismo estóico de um princípio ativo e imanente na natureza física. E o último sentido é ontológico e diz respeito não apenas à interioridade do homem, mas também à sua essência universal. Desde o sentido mais simples, ou seja, o que se relaciona à natureza física com sua exuberância natural, que, por sinal, envolve e inspira o filósofo na floresta que tornou seu abrigo, até a concepção transcendente que se aproxima da idéia de entidade metafísica criadora, a qual aparece em alguns trechos do Emílio, pode-se afirmar, resumindo, que, para Rousseau, nature é a disposição primitiva e originária da ordem existente. Esta é a causa primeira. Mesmo sendo calvinista, Rousseau não entra no mérito teológico da criação, na qual, segundo o relato do Gênesis, Deus criou no princípio os céus e a terra, e “a terra era sem forma e vazia” (Gênesis 1:2), ou seja, era o caos. Rousseau não parte do caos, mas da ordem.

Diferente de outros autores de sua época, Rousseau possui uma abordagem peculiar quanto ao conceito de natureza. Em sua obra o termo é empregado num sentido um tanto quanto metafísico, divinizado que sugere a idéia do absoluto. “Tudo é certo em saindo das mãos do Autor das coisas”, diz ele na abertura de seu tratado de educação, o Emílio. Mas no rascunho da obra o autor escreveu diferente: “Tudo é certo em saindo das mãos da natureza” (in Jimack, 1960, p. 101). Portanto, quando nos deparamos com frases do tipo: “Assim é que a natureza, que tudo faz da melhor maneira, o institui inicialmente” (Rousseau,1973, p. 62) e outros trechos que deixam claro que ela prescreve a maneira de viver (Rousseau, 1999a, p. 61), comanda os animais (Rousseau, 1999a, p. 64) e distribui dons (Rousseau, 1999a, p. 82-83), podemos concluir que a natureza possui em si a perfeição e a harmonia suficientes para ser o elemento fundador do que é e do que deve ser.

É neste sentido que nossa interpretação sugere a existência de uma natureza da natureza, isto é, uma entidade que coincide com o princípio divino, com a causa primeira ou com a força que move o universo. Por isso poderia ser grafada com “n” maiúsculo: Natureza. Assim, a Natureza absoluta (N) geraria a natureza (n) e todas as condições bio-físicas que resultaria no estado de natureza. Procurando esquematizar isso em um gráfico, temos a seguinte disposição:

Gráfico 1. Natureza e natureza

Acima de todas as coisas a Natureza (N), força primeira e ativa do cosmo que criou e mantém a grande natureza (n), composta do universo com todos os seus elementos químicos, físicos e biológicos, incluindo o homem e os animais. Inicialmente a natureza gera o estado de natureza (EN), que é a organização e ordem primeira dos elementos naturais numa disposição de harmonia, coerência e beleza. Nele habita o homem da antropogênese da humanidade, ou seja, o homem do estado de natureza (HN), cuja característica principal é o de bastar-se a si mesmo e que, por estar num estágio primitivo, pré-racional, não conhece nem o bem nem o mal. Seu viver é de acordo com as necessidades instintivas (I) e sentimentos naturais. O que o difere do animal é o fato de os animais que vivem segundo o instinto não se aperfeiçoam, estão presos a ele, ao passo que o homem é livre. Por um processo também natural, após os primeiros contatos humanos, acasalamento e primeiros ajuntamentos, o EN se transforma em estado social (ES), e o homem do estado de natureza passa a ser o homem do estado de sociedade (HS), que nasce a partir do estabelecimento dos grupos sociais e da divisão da propriedade. Os sentimentos pré-racionais do início dão lugar a um conjunto de regras comuns que são as leis (L).

Recusando a redoma da idéia teocêntrica amplamente utilizada no período medieval, o Renascimento lançou pedras e provocou uma ruptura epistemológica, propiciando um campo de estudo que passou a ser o centro das preocupações da maioria dos filósofos posteriores, ou seja, o estudo da natureza. Ao recusar a concepção divina da criação, a reflexão em torno da physis retorna com todo o ímpeto e se redimensiona quando, por influência do sentimento antropocêntrico, um elemento ativo lhe é agregado como epicentro das ações no âmbito da natureza: o homem. Despido da concepção bíblica de imagem e semelhança do Criador e de templo de Espírito Santo, o homem passa a ser o templo da razão, segundo os iluministas, e templo dos sentimentos universais, no pensamento de Jean-Jacques Rousseau.

O pensamento rousseauniano tem em Pascal (1623-1662) uma de suas fontes principais. Em torno da questão do homem, o pensador francês, em seu Pensamentos, interroga: “Afinal, que é o homem dentro da natureza? Nada em relação ao infinito; tudo em relação ao nada; um ponto intermediário entre tudo e nada” (Pascal, 1979, p. 52) – ou, nos termos que utilizo aqui, o intermediário entre a Natureza e a natureza. Tal localização do homem o torna um elemento eminentemente político porque tem o nada a ser construído diante de si; tem a natureza para ser aproveitada em seu benefício e no benefício de seus semelhantes. É claro que, para se chegar a essa conclusão, é preciso uma longa jornada que começa no homem natural, ou seja, no Adão do jardim rousseauniano, perpassa o contrato social e se complementa na obra educacional, bem exposta no Emílio.

De metafísica a journée pelos meandros da religião se revela em reflexão política. Pois, como bem discute em suas Cartas escritas da montanha, Rousseau deixa clara a necessidade de se desvencilhar do que ele chama de “dogma especulativo” (1964, p. 694) e se aprofundar no campo moral da religião, cujo sentido está no respeito à justiça, ao bem público, às leis naturais e positivas, aos deveres sociais e, enfim, aos deveres do homem e do cidadão, como bem expressa em suas Lettres écrites de la montagne (Rousseau, 1964).

Conclusão

Portanto, a Natureza é o princípio da imaterialidade que move a natureza, isto é, a materialidade. Quando a Natureza se complementa na natureza, um equilíbrio socioecológico se torna possível porque o homem, mesmo vivendo em sociedade, deverá agir segundo a natureza. Só assim será possível preservar e desenvolver a natureza humana.

Com o princípio da Natureza, Rousseau diminui a distância existente entre o Criador a criatura – bem realçada pela Igreja Católica e, em menor grau, pela Calvinista – e faz da religião um instrumento político e pedagógico, sem, contudo, cair no instrumentalismo esquemático de Maquiavel. É um instrumento que se ampara no sentido maiúsculo de natureza quando preserva os princípios evangélicos, e no seu sentido minúsculo quando procura integrar o homem ao seu meio bio-físico-social.

Como isso é possível é, em minha opinião, o assunto principal do Emílio, onde se encontra bem exposta a ação conjunta dos três mestres: a natureza, a qual propicia um trabalho de autoformação, ou seja, o desenvolvimento das faculdades internas, a expansão do eu e a autolocalização no sistema de si mesmo (psicológico); os homens, cujo trabalho se resume na heteroformação, no condicionamento das regras socias e expansão do homem para com seu semelhante, isto é, em sua autolocalização social; e, por fim, as coisas, mestre que proporciona a experiência empírica e, por ela, a expansão do homem segundo a natureza. Tudo isso com uma boa dose de religião e ação política. Não é à toa que tanto o Discurso do vigário saboiano quanto o Contrato social fazem parte das lições que Emílio deve tomar.

NOTAS

1Mestre em Filosofia pela UFG (Universidade Federal de Goiás) e doutorando em Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Professor da Faculdade de Educação da UFG (Universidade Federal de Goiás) e da Faculdade União de Goyazes (FUG).

2“Marduc enfrentou um monstro marinho, que também era uma divindade e conseguiu vencê-lo. Proeza notável, se se levar em linha de conta que Tiamat tinha apavorado os outros deuses e só Marduc teve a coragem de lhe fazer frente. Após a morte do seu adversário, Marduc cortou o corpo em duas partes e de uma fez o céu e de outra a terra.” Mito cosmogônico surgido na Babilônia antiga e fazia parte do poema Enuma Elish (in Penedos, 1984, p. 9-10).

3No princípio, os Carajás eram imortais e viviam como peixes na água. Não conheciam a natureza fora dos rios e lagos, mas havia em cada rio um buraco de onde saía uma luz intensa no qual, pela ordem do Criador, não poderiam entrar, se não perderiam a imortalidade. No entanto, tomados de intensa curiosidade, optam pela mortalidade e, adentrando o buraco, caem nas praias do Araguaia e passam a desfrutar da beleza e tranqüilidade de um mundo harmônico e natural (in Boff, 2000, p. 31-34).

REFERÊNCIAS

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PAIVA, W.A. de. 2005. O Emílio e a formação do cidadão do mundo moderno. Goiânia, GO. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal de Goiás, 189 p.

PASCAL, B. 1979. Pensamentos. Introdução e notas de Ch.-M. des Granges. 2a. ed. Rio de Janeiro. DIFEL/Editora Abril, 214 p. (Coleção Os Pensadores)

PENEDOS, Á.J. dos. 1984. Introdução aos pré-socráticos. Porto, Portugal, Rés, 141 p.

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